Sua TI é realmente ágil? Ou sua governança é burocrática?

Em um recente debate com CIOs surgiu a questão de como a TI pode ao mesmo tempo ser ágil, fazer frente aos “business moments”, aquelas oportunidades transientes de disrupção que surgem inesperadamente, e manter seu precioso legado, construído em tempos onde velocidade era menor. A solução, aparentemente é uma TI multimodal, acomodando as diversas dinâmicas que o negócio existe.

A discussão se acalorou devido ao fato que muitos executivos se apegam a gestão de processos de negócio que, embora garantam estabilidade, restringem inovação, devido a sua própria concepção. Muitos dos modelos atuais de governança foram concebidos em um cenário onde a transformação digital não se aplicava na amplitude e velocidade de hoje.  Os processos que as empresas pós-Internet adotaram, como o de entrega contínua (DevOps) foram vistos inicialmente como aplicáveis apenas a elas, que atuavam no B2C, como por exemplo Netflix e não a uma TI corporativa de empresas tradicionais. Vale apena ler este artigo ”Agile Enterprise Architecture Finally Crosses the Chasm” publicado pela Forbes. Vai nos ajudar a pensar de forma diferente.

Para aproveitar oportunidades de negócios, o desenvolvimento de software não pode mais ser medido em meses ou anos. Não pode ser o gargalo. Complexas e monolíticas aplicações, que levam muito tempo para serem desenvolvidas, com arquitetura rígida que dificulta modificações são hoje o gargalo da maioria das organizações de TI. Uma estratégia digital pressupõe agilidade e rapidez de resposta. Os modelos de governança atuais são basicamente voltados ao mundo off-line, mais estável, onde os as mudanças tendem a ser incrementais.

Cada vez mais torna-se premente desenvolver soluções não estruturadas, não rotineiras e ad hoc. Modelos como o Six Sigma colidem com esta demanda. Vale a pena ler o artigo “Is Six Sigma Killing Your Company’s Future?” O modelo Six Sigma parte da premissa que os processos já estão ótimos e que os ganhos serão obtidos por mudanças incrementais. Indiscutivelmente que não são aplicáveis a processos que demandam muita rapidez de desenvolvimento, da ideia à execução.  Negócios digitais (negócios que envolvem produtos, serviços ou experiências de clientes no meio digital) demandam velocidade para não perder-se o “business moment”, oportunidade única de criar vantagem competitiva. Por serem processos inventados, geralmente diferentes dos demais processos da empresa, não podem passar pelos métodos de governança dos processos estáveis.

Em absoluto se deve deixar de lado a governança e a gestão de processos. Mas os modelos adotados não podem impedir ou restringir inovação. A transformação digital significa reinventar processos, pois são iniciativas que vão inovar como produtos e serviços serão criados, precificados e distribuídos. Processos digitalizados podem aplicar de forma conjunta TI (e as transformações embutidas, como cloud, Big data analytics e mobilidade) e a Internet das Coisas de modo a criar novos negócios.

Na economia digital o risco de surgir um competidor lateral (de fora de seu setor de indústria) cresce significativamente. Um exemplo, a indústria automotiva e a de seguros irão colidir. Nos EUA uma seguradora, Progressive, instala equipamentos que monitoram o comportamento do motorista e isso se reflete no prêmio. A indústria automotiva está embutindo mais e mais sensores nos seus carros e também podendo coletar estes dados poderão oferecer seu próprio serviço.

A velocidade das mudanças também se acelera. O telefone, inventado em 1878 precisou de 75 anos para alcançar a marca dos 100 milhões de usuários. O celular levou apenas 16 anos. A Internet sete anos. O Facebook conseguiu 100 milhões de usuários em quatro anos e o Whatsapp em três anos e quatro meses destruiu o mercado mundial de SMS.

Modelos de governança muito rígidos podem impedir a utilização de plataformas que permitam usuários externos criarem suas próprias soluções, em cima dos sistemas internos da empresa.  A organização de TI deve criar uma plataforma que permita criar através de APIs aplicações desenvolvidas por terceiros. Claro que segurança e controle são necessários, mas a mudança dos sistemas atuais para esta plataforma muitas vezes é restringida pelos modelos de governança que estão implementados. Afinal, no mundo digital, sempre terá muito mais inovação fora que dentro de uma organização.

Na economia digital toda decisão relevante de negócios passa pela tecnologia. Tecnologia em muitos setores, já não é mais meio, mas atividade-fim. Bancos, por exemplo. Além de brigarem entre si, sempre existe o potencial de novos e ameaçadores competidores, como moedas virtuais (Bitcoin) e modelos de financiamento coletivo (crowdfunding). Em muitos outros setores, em maior ou menor grau a competição lateral também vai aparecer. Mais cedo ou mais tarde.

A conclusão do debate foi que é necessário rever os atuais modelos de governança, de modo que eles não sejam barreira para inovação. Na economia digital o reinado é do software e criar software não pode seguir o mesmo ritmo e princípios de criação de produtos físicos.

Um meio de compreender como mundo digital funciona é ir ver como as empresas da Internet trabalham e desenvolvem sistemas. Porque não adotar vários de seus princípios? Por que a TI de uma empresa não pode ter um ambiente propício à inovação, com painéis coloridos, divisórias translucidas com post-its? Porque devem ter o mesmo ambiente austero de outros setores? Porque manter TI como entidade separada, aumentando a tensão entre as suas equipes e dos usuários que usam seus sistemas? Porque manter o conceito de departamentos, quando as empresas funcionam por processos que passam por vários setores? Porque não fazer hackathons para descobrir novos talentos e novas aplicações?

Enfim, entrar em uma transformação digital significa não fazer pequenas mudanças, mas uma revolução. A questão é que quanto mais tempo se leva para dar o primeiro passo, mas vulnerável fica a empresa e sua TI. Sim, existem riscos, mas o risco maior é não fazer nada.

Entrar em uma transformação digital significa não fazer pequenas mudanças, mas uma revolução.

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